Um dos mais brilhantes e respeitados jornalistas automobilísticos e automotivos, o veterano e brilhante Roberto Nasser, escreveu em sua coluna, agora no site Motorcar, sobre as decisões da VW de não promover recalls.
Como sempre, escreveu muito bem…

O Ministério da Justiça pôs o dedo na ferida: quer saber porque o Volkswagen Fox guilhotina o dedo do usuário que pretenda recuar o banco traseiro. Consumidores com dedos acidentados reclamaram, a montadora não se mexeu quanto a reconhecer deficiência no projeto ou indenizá-los. Porém desenvolveu uma pecinha para ser colocada no sistema. É como um pedacinho de mangueira de jardim, para vestir a alça metálica, impedindo o acesso ‘a alça metálica que, puxada indevidamente, provoca a queda do banco e ferimentos no dedo.
Quem quiser escapar de acidentes, deve ligar para um revendedor e conferir se a pecinha já está disponível. A aplicação é na hora e gratuita. O que o Departamento de Proteção ao Consumidor quer entender é o porquê de uma economia de alguns centavos em troca do risco de ferimentos nos consumidores. A Volkswagen se nega a fazer um re-call, entendendo que a legislação só a obrigaria caso houvesse ameaça à segurança.
Tradição
A política da VW em não explicar os defeitos de seus carros é kaiseriana, superior e distante do universo dos compradores. Fez tradição em não explicar e em não resolver. Para relembrar, há anos criou versão da Kombi com motor diesel. Com baixa quilometragem o motor fundia ou quebrava. A montadora negava-se a dar garantia alegando ser mau uso – e todas as oficinas sabiam ser um problema de filtragem de ar.
Tempos depois, o motor do Passat, nascido 1.500, elevado a 1.600 ia bem. Mas, aumentado a 1.800 cm3, começou a fundir com pouco uso. Novamente a Volkswagen fingiu-se de morta. O problema estava na deficiência de lubrificação. E, negado a princípio, foi corrigido depois. Mas quem teve prejuízo, com ele ficou. Quando do lançamento do mesmo Fox um comprador foi a uma festa e, à hora de ir embora, bloqueado de frente, tentou sair de ré. E não conseguiu. O motor 1.0 não tinha força para tal. Reclamou, e a Volkswagen com a candidez que parece ter origem em São Bernardo do Campo, SP, como se nada soubesse ou nada tivesse a ver, declarou ser assim mesmo. E ficou por isto. O Fox é o único 1.0 que escolhe ladeiras – todos os outros sobem onde ele fica.
No caso do banco, consultada, a montadora diz ter providenciado a solução, e aguardará o desdobrar do questionamento do Ministério da Justiça, e prazos para explicações, recursos, etcccc. É uma explicação, mas não é solução. Faltou cara na Volkswagen. Alguém que aparecesse, mandasse, assumisse imediatamente, resolvendo o problema, afastando os riscos para o usuário. Uma postura diferente do se esquivar na lei das possibilidades e no rito administrativo do questionamento do governo federal.
Sob o aspecto mecânico o problema, entretanto, parece fundado na complicada lógica aplicada pela empresa a este produto. A lógica do acionamento do estepe exposto do Crossfox, a exigir três mãos, é a mesma que manda o cliente analisar a subida para saber se a versão 1.0 consegue sair em re’, ou exige um estudo pelo usuário para acionar o banco traseiro. Antes, nas primeiras séries, 2004 e 2005, o Fox portava uns adesivos tipo passo-a-passo para ensinar a acionar o dispositivo. Foi no primeiro ano o primeiro problema e, inexplicavelmente, a empresa em vez de rever a operação, tirou fora as instruções, economizou alguns centavos, aumentou o risco.
Fazer correr o banco traseiro para ampliar espaço aos passageiros do banco traseiro, não é criação VW, mas cópia do brilhante Renault Twingo. Só que, no inteligente francês, não há alcinha que pode guilhotinar dedo, mas alavanca protegida numa estrutura, sem riscos aos usuários. Já que é para copiar, pelo menos copiasse certo. Faltou seriedade. Ou testosterona.
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